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PF detalha vínculos pessoais e políticos de Jaques Wagner com Banco Master

PF detalha vínculos pessoais e políticos de Jaques Wagner com Banco Master

Por Evilásio Júnior

31/07/2026 às 08:28

Imagem de PF detalha vínculos pessoais e políticos de Jaques Wagner com Banco Master

Foto: Geraldo Magela / Agência Senado

A Polícia Federal (PF) detalhou, em relatórios encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF), uma suposta relação de proximidade pessoal e interlocução política entre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e executivos ligados ao Banco Master.

Os documentos, que tiveram o sigilo levantado nesta quinta-feira (30) pelo ministro André Mendonça, descrevem encontros, viagens, trocas frequentes de ligações, atuação em pautas legislativas de interesse da instituição financeira e supostas vantagens indevidas atribuídas ao núcleo investigado.

De acordo com a investigação, Wagner mantinha uma relação de confiança com o ex-sócio do Banco Master Augusto Ferreira Lima, conhecido como "Guga", vínculo que, na avaliação da PF, também o aproximou do ex-controlador da instituição, Daniel Vorcaro, criando um canal de interlocução para tratar de assuntos de interesse do banco.

O senador foi alvo de busca e apreensão durante a 9ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de junho. Para a Polícia Federal, há indícios de que Wagner teria recebido vantagens econômicas em possível contrapartida à atuação parlamentar em temas de interesse do Banco Master.

Entre os benefícios investigados está a negociação para aquisição de um apartamento de R$ 2,5 milhões, em Salvador, que, segundo a PF, teria seguido o mesmo modelo utilizado na compra de imóveis apontados como pagamento de propina ao ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa.

Monitoramento autorizado pelo STF 

Antes da operação, o ministro André Mendonça autorizou a Polícia Federal a acessar registros telefônicos e monitorar, durante dez dias, a localização aproximada do celular de Jaques Wagner por meio das antenas das operadoras.

A decisão permitiu o acesso ao histórico de chamadas, registros de mensagens SMS — sem acesso ao conteúdo —, identificação dos aparelhos utilizados, conexões de internet e estações rádio-base (ERBs) utilizadas pela linha telefônica do senador.

Ao justificar a medida, Mendonça afirmou que havia risco concreto de vazamento da investigação. O ministro registrou que, no mesmo dia em que a PF protocolou os pedidos de busca e apreensão e monitoramento, recebeu um pedido de audiência de um dos investigados. Segundo apuração da TV Globo, a solicitação foi feita por Jaques Wagner.

Relação de confiança 

Nos relatórios, a Polícia Federal classifica como "longa e duradoura" a relação entre Jaques Wagner e Augusto Ferreira Lima.

Mensagens analisadas pelos investigadores mostram encontros familiares, viagens e demonstrações de proximidade entre os dois.

Em outubro de 2023, Wagner e sua esposa, Fátima Mendonça, aceitaram um convite para passar um fim de semana na chamada Ilha da Paixão, imóvel então sob controle de Augusto Lima. Segundo a PF, o deslocamento foi realizado em uma aeronave ligada ao empresário.

Após a viagem, a esposa do senador enviou uma mensagem à família de Augusto afirmando: "A gente ama vcs". A resposta foi imediata: "Amamos vocês!!".

Para a corporação, o conteúdo evidencia o grau de confiança existente entre as famílias.

Levantamento da investigação aponta ainda que Wagner e Augusto trocaram 74 ligações telefônicas entre novembro de 2023 e maio de 2025, totalizando aproximadamente cinco horas e meia de conversa.

Lista de presentes e vinhos 

Outro elemento apontado pela PF é uma lista intitulada "Lembranças de Fim de Ano", enviada pela secretária de Augusto Lima em 17 de dezembro de 2024.

O documento relaciona autoridades que receberiam presentes de Natal:

  • Jaques Wagner, senador e então líder do Governo Lula no Senado;
  • Rui Costa, ministro da Casa Civil;
  • Jerônimo Rodrigues, governador da Bahia;
  • ACM Neto, ex-prefeito de Salvador e candidato ao Governo da Bahia;
  • Bruno Reis, prefeito de Salvador;
  • Antônio Rueda, presidente nacional do União Brasil.

Na sequência, a secretária encaminhou uma lista de vinhos com preços entre R$ 2,5 mil e R$ 5,3 mil.

A investigação também localizou fotografias de embalagens identificadas com os nomes "Jaques" e "Tio Guiga", referência, segundo a PF, a Guilherme Sodré, pai do atual secretário estadual do Meio Ambiente, Eduardo Sodré, enteado de Wagner.

Os documentos não afirmam, porém, que todos os nomes constantes da relação efetivamente receberam os presentes.

Atualizações sobre o Banco Master 

As mensagens também mostram que Augusto Ferreira Lima mantinha Jaques Wagner informado sobre assuntos estratégicos do Banco Master.

Entre os temas compartilhados estavam mudanças na estrutura societária da instituição, melhora na classificação de risco, negociações envolvendo o BRB e movimentações legislativas de interesse do banco.

Segundo a PF, Wagner reagia às mensagens com emojis de "joinha" e "mãos em oração", comportamento que, para os investigadores, revela um "padrão recorrente de envio de notícias relacionadas ao Banco Master".

Reuniões reservadas
 

Os relatórios descrevem ainda encontros realizados no gabinete de Jaques Wagner.

Em abril de 2024, o senador tentou organizar uma reunião com Augusto Lima e uma pessoa identificada como "Messias", que a PF suspeitou ser uma referência ao advogado-geral da União, Jorge Messias.

Em um áudio, Wagner afirma que seu gabinete seria um ambiente "mais protegido e discreto" e orienta uma forma de entrada que evitaria o procedimento de identificação na portaria do Senado.

Procurado, Jorge Messias negou participação na reunião: "Nunca estive em reunião com o senhor Lima no gabinete do senador Jaques Wagner no Senado." 

A chamada "Emenda Master" 

A PF afirma ainda que Wagner acompanhou diretamente a tramitação da chamada "Emenda Master", proposta que ampliava o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para R$ 1 milhão por pessoa física.

Segundo os investigadores, mensagens extraídas do celular de Augusto Lima mostram o senador acompanhando o tema de perto.

Os documentos também afirmam que Daniel Vorcaro enxergava Jaques Wagner como um "aliado político" para interesses regulatórios da instituição.

"O próprio VORCARO percebia o Senador como aliado político em operação de natureza essencialmente regulatória (...), sugerindo que o alinhamento do parlamentar transcendia o mero acompanhamento legislativo e alcançava o plano das articulações políticas institucionais", registra a PF.

Voos, ingressos e apartamento 

Entre as supostas vantagens atribuídas ao núcleo do Banco Master estão o uso de aeronaves, ingressos para shows, presentes e a negociação de um apartamento de alto padrão em Salvador.

No celular de Daniel Vorcaro, investigadores encontraram mensagens em que o ex-controlador do banco pede discrição sobre um voo que teria transportado Jaques Wagner.

"Nem apaga o motor", escreveu Vorcaro, segundo a PF, ao solicitar rapidez na retirada da aeronave da Bahia.

Outro episódio citado envolve a compra de ingressos para um show da cantora Taylor Swift.

De acordo com a investigação, o benefício teria alcançado familiares do senador e pessoas próximas. Os bilhetes foram adquiridos pela Reag Investimentos S.A., ao custo total de R$ 63.339, conforme os documentos.

A PF também afirma que Wagner encaminhou a Augusto Lima informações sobre uma unidade do empreendimento Poème Horto, em Salvador, incluindo o contato do corretor, número do apartamento e valor do imóvel.

Conforme os investigadores, Augusto acionou operadores financeiros para estruturar a aquisição por meio de fundos e empresas interpostas. As tratativas, de acordo com a investigação, continuaram mesmo após a prisão de Daniel Vorcaro, em novembro de 2025.

Defesa 

Jaques Wagner nega as acusações.

Em manifestações anteriores, o senador afirmou que nunca atuou em favor do Banco Master ou de qualquer outra instituição financeira, sustentou que o apartamento citado pela investigação jamais integrou seu patrimônio e disse confiar que as investigações comprovarão sua versão dos fatos.

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