Careca de Saber: o 'galinheiro' do Avante e o silêncio que ninguém explica
Por Redação
20/04/2026 às 09:07

Foto: Divulgação
O crescimento meteórico do Avante na Bahia ganhou, nos últimos meses, um ingrediente incômodo nos bastidores da política estadual: a filiação do deputado estadual Binho Galinha à legenda.
Suspenso pelo PRD após ser preso em 3 de outubro de 2025, com autorização da Assembleia Legislativa, o parlamentar foi filiado discretamente ao Avante no dia 12 de janeiro, ainda antes da janela partidária.
O Blog do Vila apurou que a ficha de filiação foi levada ao presídio pelo seu chefe de gabinete, o ex-deputado estadual Humberto Cedraz. De acordo com interlocutores ouvidos, o movimento foi avalizado pelo presidente da agremiação na Bahia, Ronaldo Carletto, e pelo ex-ministro chefe do governo Lula, Rui Costa.
"Claro que eles não só participaram como lideraram o processo de filiação de Binho Galinha. Tudo o que acontece no Avante passa por Rui e Carletto", resumiu um interlocutor do Palácio de Ondina.
Conforme as fontes, a motivação é meramente pragmática: o deputado foi eleito pelo Patriota em 2022, com 49.834 votos, e tem expectativa de crescimento este ano. Pesquisas internas apontam que ele lidera as intenções de votos entre os postulantes à Alba no seu reduto eleitoral: a Região Metropolitana de Feira de Santana.
Crescimento e silêncio
A filiação de Binho ocorreu justamente no momento em que o Avante se consolidava como uma das principais forças da base governista na Bahia.
Comandado no estado pelo ex-deputado federal e pré-candidato a suplente de senador Ronaldo Carletto, o partido elegeu 60 prefeitos, 36 vice-prefeitos e 472 vereadores em 2024, virou a segunda maior legenda em número de prefeituras e saltou de um para sete deputados estaduais após a última janela partidária.
Nos bastidores, há o entendimento de que parte do crescimento se deve também à influência do ex-ministro da Casa Civil, Rui Costa, pré-candidato do PT ao Senado, que teria ajudado a transformar a legenda em uma potência estadual.
Apesar disso, ninguém quer assumir a responsabilidade pela entrada de Binho.
A coluna conversou com quatro dos sete deputados estaduais do Avante — Felipe Duarte, Luciano Araújo, Soane Galvão e Vítor Azevedo — e todos disseram desconhecer a filiação ou afirmaram que o caso não gera constrangimento.
Nos bastidores, porém, a história é outra.
“Todo mundo diz que não sabia, mas no fundo todos sabiam. Ninguém entra em partido nenhum sem olhar a nominata”, disse uma fonte ouvida pela coluna.
A avaliação reservada é de que nenhum dos novos integrantes quis criar atrito interno em um partido que virou refúgio para deputados preocupados com a própria sobrevivência eleitoral.
“A Justiça é quem tem que resolver”
Entre os deputados ouvidos, o discurso é praticamente o mesmo: cabe à Justiça decidir o destino de Binho e a situação não teria potencial para contaminar o partido.
Ex-PP, Felipe Duarte afirmou que o Avante não é “agente julgador” e que o futuro político de Binho depende exclusivamente do Judiciário.
“A Justiça é quem tem que resolver isso aí. Nós esperamos que esse resultado saia o quanto antes e seja justo para ambas as partes. Se for da permissão da Justiça, ele possa concorrer. Se não, infelizmente não poderá participar das eleições”, disse.
Questionado sobre eventual desgaste de imagem, Felipe minimizou.
“Absolutamente. Eu sei da minha conduta, do meu caráter e do meu caminho”, afirmou.
Ex-presidente do Solidariedade na Bahia, Luciano Araújo disse que encontrou Binho já filiado quando chegou ao partido e não vê prejuízo eleitoral.
“Eu não acredito que Binho venha candidato. Eu acredito que seja alguém da sua família. Para mim, não causa nenhum constrangimento”, declarou.
Já Vítor Azevedo (ex-PL) preferiu concentrar a responsabilidade na direção da legenda.
“Quem trata das filiações é o nosso presidente, Ronaldo Carletto. A questão de Binho é uma questão da Justiça. Não é a gente que julga”, declarou.
Por fim, a líder do Avante na Alba Soane Galvão (ex-PSB) foi a que mais saiu em defesa do colega.
“Binho Galinha é um colega meu, de corredor, meu vizinho de porta. Quem vai decidir é o Judiciário. Quem somos nós para estar julgando?”, questionou.
Ela também rejeitou qualquer dano à imagem do Avante.
“Ele tem a sua militância. Tem o povo que ele ajuda, que tem admiração por ele. Não acredito que isso vá manchar a imagem do partido”, apostou.
Patrick Lopes, único integrante original da legenda, e Laerte do Vando (ex-Podemos) não foram localizados para comentar o caso.
O silêncio dos caciques
Se os deputados estaduais ao menos falaram, o mesmo não aconteceu com as principais lideranças do grupo governista.
Até agora, seguem sem se manifestar publicamente sobre a filiação de Binho o governador Jerônimo Rodrigues, cuja imagem é usada pelo parlamentar nas redes sociais, o ex-ministro Rui Costa, o presidente estadual do Avante, Ronaldo Carletto, e os deputados federais Neto Carletto e Pastor Sargento Isidório.
Da cúpula governista, chamou atenção recentemente a declaração do presidente estadual do PT, Tássio Brito, de que Binho “não caberia no partido”.
O entendimento geral é de que o problema para o Avante não é jurídico. Esse ficará com a Justiça. O problema é político.
O partido que mais cresceu na Alba tem de explicar por que aceitou em sua nominata um deputado preso e investigado por suposta chefia de milícia.
Deputado segue preso
Atualmente, Binho Galinha está custodiado em uma sala de Estado-Maior no Centro de Observação Penal (COP), no Complexo Penitenciário da Mata Escura, em Salvador.
O deputado é investigado por supostamente chefiar uma milícia com atuação em Feira de Santana. As operações El Patrón e Estado Anômico apontam o parlamentar como chefe de uma organização criminosa suspeita de envolvimento com lavagem de dinheiro, obstrução da Justiça, jogo do bicho, agiotagem, receptação qualificada, usurpação de função pública, embaraço a investigações, comércio ilegal de armas e tráfico de drogas.
A defesa nega as acusações e afirma que ele colabora com as investigações.
Avante Bancada
A expectativa da nova bancada
Se há desconforto nos bastidores, há também confiança de sobra entre os deputados do Avante sobre o desempenho da legenda na eleição de outubro.
Felipe Duarte aposta na manutenção da bancada atual. “Nós montamos um partido bem estruturado. A nossa pretensão é manter as sete cadeiras para o próximo ano legislativo”, afirmou.
Luciano Araújo acredita que o Avante pode até crescer ainda mais. “A perspectiva do Avante é fazer sete deputados ou mais”, disse.
Por sua vez, Vítor Azevedo acredita que o Avante pode se tornar uma das principais forças do próximo governo. “A gente pode fazer do Avante um dos grandes partidos protagonistas do próximo governo aqui da Bahia”, afirmou.
Já Soane Galvão, que não disputará a reeleição e aposta no marido, o ex-prefeito de Ilhéus Mário Alexandre, para herdar o espólio político, disse que o grupo segue competitivo.
“Se o povo quiser e Deus permitir, estaremos aqui mais uma vez com o mandato, agora Mário Alexandre na frente”, declarou.
Marão também ingressou no Avante durante a última janela partidária. Alvo da Operação Barganha da Polícia Federal, que o acusa de receber propina de um contrato de serviços de coleta de lixo, o ex-prefeito teve as contas reprovadas pelo Tribunal de Contas da União na última semana. Segundo o TCU, ele terá que devolver quase R$ 1,6 milhão devido a irregularidades na aplicação de recursos federais destinados a pessoas afetadas pelas chuvas de abril de 2023.
Fonte: Blog do Vila
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