
Foto: Evilásio Júnior
A temporada eleitoral já começou oficialmente nos bastidores da Câmara Municipal de Salvador. Dos 43 vereadores da Casa, pelo menos 20 — 46,5% das cadeiras — pretendem disputar as eleições de outubro, seja para a Assembleia Legislativa ou para a Câmara dos Deputados.
O movimento, naturalmente, despertou a expectativa de suplentes que aguardam uma oportunidade para assumir uma cadeira, ainda que temporariamente.
Mas quem espera uma onda de licenças pode se decepcionar.
Pelo menos até agora, o clima predominante nos corredores do Legislativo soteropolitano é de resistência à abertura de vagas. A matemática é simples: em ano eleitoral, mandato significa visibilidade, estrutura política, agenda pública e contato direto com o eleitorado. Poucos parecem dispostos a abrir mão disso.
Muniz descarta prejuízo aos trabalhos
Apesar do grande número de pré-candidatos, o presidente da Câmara, Carlos Muniz (PSDB), garante que a disputa eleitoral não comprometerá o funcionamento da Casa.
De acordo com ele, o cronograma legislativo já está organizado até o fim do ano e foi pactuado com os líderes partidários.
"Não teremos prejuízo nenhum. Temos votações todas as quartas-feiras e, no segundo semestre, vamos diminuir o ritmo, mas mantendo a tramitação dos projetos importantes do Executivo e dos vereadores", afirmou o tucano ao Blog do Vila.
Questionado sobre possíveis afastamentos, Muniz foi ainda mais direto: "Até agora só um vereador pediu licença. Nenhum outro vereador conversou comigo sobre pedir licença"
A declaração reforça o que a coluna ouviu nos bastidores: o discurso público e o comportamento interno caminham na mesma direção.
A fila anda... mas nem tanto
Até o momento, apenas o PP abriu efetivamente espaço para um suplente.
O vereador George Gordinho da Favela, pré-candidato a deputado estadual, licenciou-se do cargo e permitiu a posse de Tiago Queiroz, segundo suplente da legenda.
A movimentação, no entanto, não foi consensual.
Integrantes do próprio partido resistiam à licença porque Queiroz já declarou apoio à candidatura de Cacá Leão (PP) à Câmara dos Deputados. Em um momento de intensa disputa por bases eleitorais, abrir espaço para alguém alinhado a outro projeto não era exatamente o cenário ideal para todos.
Antes disso, o primeiro suplente, Sandro Bahiense, já havia assumido a vaga deixada por Jorge Araújo, que ocupa temporariamente uma cadeira na Câmara dos Deputados na vaga aberta com a ida de João Leão para a Secretaria Municipal de Governo.
No União Brasil, apoio virou moeda de troca
Se no PP houve resistência, no União Brasil a discussão ganhou contornos ainda mais pragmáticos.
Segundo interlocutores da legenda, os suplentes mais próximos da convocação — Cátia Rodrigues e Binho de Ganso — precisariam assumir compromissos políticos claros antes de qualquer licença dos titulares.
Traduzindo do "politiquez": abrir espaço sem garantia de apoio eleitoral passou a ser visto como mau negócio.
Nem mesmo vereadores que não disputarão mandato demonstram disposição para deixar a cadeira.
É o caso de Claudio Tinoco, que atua na coordenação da campanha de ACM Neto, mas entende que pode desempenhar a função sem necessidade de afastamento.
André Fraga segura vaga e barra retorno de Suíca
Outra situação observada atentamente nos bastidores envolve o vereador André Fraga (PV).
Pré-candidato a deputado estadual, ele não demonstra interesse em abrir espaço para o suplente Luiz Carlos Suíca (PT).
O motivo é político.
Embora integrem a mesma Federação Brasil da Esperança, o ambientalista mantém divergências e não vê alinhamento ideológico com os partidos federados, especialmente o PT.
Resultado: a cadeira deve permanecer ocupada.
PDT vive indefinição
A situação mais nebulosa talvez seja a do antigo grupo do PDT.
Os vereadores Anderson Ninho, Roberta Caires e Débora Santana foram eleitos pela legenda, mas migraram para outras siglas durante a janela partidária.
Nenhum deles confirmou até agora se pretende solicitar licença durante a campanha.
Caso isso aconteça, os principais beneficiados seriam Zilton, Leo Kret do Brasil e Odiosvaldo Vigas.
No caso de Leo Kret, o momento é particularmente delicado.
A ex-vereadora foi exonerada recentemente da Diretoria de Políticas para Pessoas LGBTQIAPN+ da Secretaria Municipal da Reparação Social e teve seu nome citado na chamada Operação Sponsor, investigação que apura suspeitas de peculato, fraudes licitatórias e desvios de recursos destinados a entidades carnavalescas e eventos da comunidade LGBTQIAPN+.
Vinte candidaturas e um dilema
A Câmara chega à corrida eleitoral com nove pré-candidatos à Assembleia Legislativa e onze à Câmara dos Deputados.
Pré-candidatos a deputado estadual
- Marcelle Moraes (União Brasil)
- Paulo Magalhães Júnior (União Brasil)
- André Fraga (PV)
- Cezar Leite (PL)
- George Gordinho da Favela (PP)
- David Rios (MDB)
- Felipe Santana (PSD)
- Anderson Ninho (PSDB)
- Silvio Humberto (PSB)
Pré-candidatos a deputado federal
- Duda Sanches (PSDB)
- Maurício Trindade (PSDB)
- Alexandre Aleluia (Novo)
- Jorge Araújo (PP)
- Sandro Filho (PP)
- Sandro Bahiense (PP)
- Eliete Paraguassu (PSOL)
- Hamilton Assis (PSOL)
- Débora Santana (PSDB)
- Cris Correia (PSDB)
- Roberta Caires (Republicanos)
As três últimas, sobretudo Cris e Roberta, que resistem em disputar a eleição, ainda não decidiram se terão os nomes nas urnas, embora estejam nas nominatas de seus partidos. Já o entendimento dos pares é de que a candidatura Aleluia não será efetivada.
Quem está de olho nas cadeiras
Enquanto os titulares medem custos e benefícios de uma eventual licença, dezenas de suplentes acompanham cada movimentação.
Entre os que seguem na expectativa estão:
União Brasil
Cátia Rodrigues, Binho de Ganso e Elton Pastor da Favela
PSDB-Cidadania
Felipe Lucas, Tia Jove e Lourival Evangelista
PL
Soldado Prisco, Alexandre Moreira e Lorena Brandão
PP
Osvaldo Bernardinho, J. Carlos e Anna Valéria
PDT
Zilton, Leo Kret do Brasil e Odiosvaldo Vigas
MDB
Ana Rita Tavares, Rogério e Dr. Alan Castro
PSD
Carlos Kléber, Xavier Pato Roco e André Araújo
Federação Brasil da Esperança
Luiz Carlos Suíca, Joel Meireles e Gilmar Santiago
PSB
Rodrigo Hita, Bruno Carianha e Geovani Azevedo
PSOL
Laina Crisóstomo, Tâmara Azevedo e Rodrigo Coelho
O mandato vale ouro
Se há uma conclusão possível neste momento é de que a eleição transformou cada cadeira da Câmara em um ativo político valioso demais para ser entregue sem contrapartida.
A expectativa dos suplentes continua viva, mas os sinais emitidos pelos vereadores apontam para um cenário de poucas licenças e muita cautela.
Pelo menos por enquanto, a fila anda devagar.
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